
Recentemente li um artigo no Valor Econômico, “Não confunda o mar com as ondas do mar”, de Betania Tanure, que traz uma reflexão muito simples, mas muito profunda: a gente vive tentando encaixar a realidade em modelos, como se tudo fosse previsível. Só que não é.
E isso tem tudo a ver com o que vemos na prática da contabilidade.
Hoje é muito comum aparecerem “modelos prontos” que, na teoria, servem para qualquer empresa.
Regime tributário ideal, estrutura societária padrão, forma de operar que “funciona pra todo mundo”. O problema é que isso ignora o principal: cada empresa é uma realidade.
Modelo ajuda. Mas não resolve tudo.
O erro começa quando a gente esquece que o modelo é só uma simplificação da realidade. Ele não capta todas as variáveis do negócio. Não entende o momento da empresa, o setor, o risco, a estratégia, o comportamento dos sócios.
É aí que acontece o que o artigo chama de focar na “onda” e esquecer o “mar”.
Na prática, isso aparece muito no planejamento tributário. Decisões são tomadas olhando só para uma variável — normalmente economia de imposto — e deixando de lado o restante. E o restante, muitas vezes, é o que faz a diferença.
Resultado: empresa mal enquadrada, estrutura que não sustenta crescimento, risco que não foi avaliado.
A sensação é de controle. Mas é só uma ilusão.
E, como o próprio artigo destaca, essa ilusão de controle pode ser mais perigosa do que a própria incerteza.
No fim do dia, o que separa uma boa decisão de uma decisão ruim não é o modelo. É a leitura do contexto.
É entender que duas empresas parecidas podem precisar de soluções completamente diferentes.
É parar de buscar resposta pronta e começar a fazer a pergunta certa.
Porque, no final, a lógica é simples: a onda chama atenção, mas é o mar que importa.
João Montenegro é professor da UFRN, CEO da Montenegro HUB, contador e pesquisador em inovação, gestão e empreendedorismo. É colunista do Portal Juristec, onde escreve sobre temas que conectam pessoas, decisões e negócios em movimento.
