
A medicina preventiva está prestes a dar um novo salto tecnológico. Agora, o uso de dispositivos vestíveis, como relógios e anéis inteligentes, promete ajudar na detecção precoce de condições clínicas graves. Os principais focos estão na doença de Parkinson e em distúrbios cardíacos.
O novo Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) Viva Bem, uma cooperação entre Fapesp, Unicamp e Samsung, foca no desenvolvimento de inteligência artificial (IA) capaz de identificar “sinais invisíveis” de doenças muito antes que os sintomas se tornem evidentes.
Diferente da medicina tradicional, que geralmente se baseia em dados coletados durante consultas pontuais ou os famosos “check-ups” anuais, a IA em dispositivos vestíveis permite um monitamento 24 horas por dia, sete dias por semana. A coleta contínua de dados durante a rotina normal do usuário revela padrões que uma consulta médica de 15 minutos poderia gerar.
O diferencial tecnológico das pesquisas brasileiras é o foco em IA embarcada, o que significa que os algoritmos rodam diretamente do relógio ou anel. Isso permite o processamento de dados em tempo real e de forma eficiente, sem depender constantemente de conexões externas.
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As “frentes de ataque” da IA na saúde
A proposta envolve o processamento simultâneo de dados de diversos sensores que já equipam os aparelhos, como frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura, movimentos e condutividade elétrica da pele.
As principais frentes de ataque passam por algumas doenças e situações específicas. Veja abaixo:
Doença de Parkinson: algoritmos analisam tremores, padrões de sono e forma de andar (marcha) para identificar indícios da doença anos antes do diagnóstico clínico convencional;
Saúde cardiovascular: a tecnologia pode funcionar como um eletrocardiograma contínuo, monitorando a variablidade cardíaca para identificar arritmias e risco de infarto ou AVC;
Sáude mental: alterações na condutividade elétrica da pele já foram validadas como indicadores de estresse e ansiedade detectáveis pelos sensores dos relógios;
Idosos e prevenção de quedas: a IA pode identificar o declínio na força e independência de movimento com meses de antecedência, permitindo intevenções para evitar quedas.
“Queremos, por meio desses dispositivos vestíveis cada vez mais populares e acessíveis, enxergar sinais invisíveis de doenças muito antes que os sintomas se tornem clinicamente evidentes”, disse Anderson Rocha, professor do Instituto de Computação da Unicamp e coordenador do Viva Bem.
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Conceito de “corpo único” e os dados sensíveis
Para evitar diagnósticos genéricos, o sistema é treinado sob a premissa de que cada corpo é único. Em vez de comparar o usuário apenas com padrões médios da população, a IA aprende a variabilidade individual de cada pessoa.
Além disso, o centro adota a diretriz de explicabilidade, o que obriga a IA a explicar os motivos técnicos de um alerta. Segundo a pesquisa, isso garante que o médico tenha segurança na tomada de decisão clínica.
Quanto á segurança, por se tratar de dados de saúde, o projeto segue protocolos rígidos de privacidade e ética para evitar vazamentos que poderiam causar discriminação ou constrangimento.
Protagonismo brasileiro
Com um investimento inicial de R$ 20 milhões, o projeto envolve mais de 70 pesquisadores da Unicamp e especialistas da Samsung.
De acordo com a marca, três das quatro tecnologias principais presentes no seu próximo lançamento de smartwatch foram desenvolvidas pela equipe de pequisa no Brasil.
O objetivo final, segundo os coordenadores, não é substituir o médico, mas fornecer ao usuário a informação necessária para procurar um especialista no momento ideal, o que pode melhorar a qualidade de vida por meio da antecipação.
