A reforma tributária sobre o consumo já deixou de ser apenas um projeto em discussão no Congresso. Ela passou a fazer parte, de forma definitiva, do ambiente de negócios no Brasil. Mesmo assim, ainda percebo muitos empresários tratando o tema como algo distante, ou restrito ao departamento fiscal. Um artigo recente do Valor Econômico reforça esse alerta ao mostrar que médias e grandes empresas colocaram em prática apenas cerca de 10% das ações necessárias para se preparar para o período de transição da reforma, segundo pesquisa da consultoria Tax Group.

No dia a dia do escritório, vejo que ainda são poucas as empresas realmente atentas a essas mudanças. O dado chama atenção não apenas pelo baixo nível de preparação, mas principalmente pelo que ele revela: a reforma ainda está sendo enxergada de forma limitada. O debate segue concentrado em tributos, alíquotas e créditos, quando, na prática, os impactos vão muito além disso. A reforma afeta preços, contratos, fluxo de caixa, decisões de compra, estratégias comerciais e o próprio posicionamento das empresas no mercado. Estamos falando de uma mudança na lógica de funcionamento dos negócios, e não apenas de uma troca de impostos.

O próprio Valor Econômico destaca que houve algum avanço na adequação de sistemas, mas que existe um atraso relevante em frentes essenciais, como contratos, precificação e análise econômica da transição. Isso mostra uma compreensão parcial do desafio. Investir em tecnologia é importante, mas não resolve tudo. Sem revisar contratos, simular impactos e repensar estratégias, o risco é claro: desequilíbrios financeiros, conflitos contratuais e perda de competitividade.

Embora o levantamento tenha foco em empresas de maior porte, esse cenário não é exclusivo das grandes organizações. Pequenas e médias empresas também serão impactadas — e, muitas vezes, de forma ainda mais sensível. A ideia de que a reforma é algo distante ou que só afeta grandes grupos pode levar a decisões tardias, quando os custos de adaptação já são maiores e as opções, mais limitadas.

É justamente nesse ponto que o papel de contadores e advogados se torna ainda mais relevante. Não basta conhecer a lei ou acompanhar a regulamentação. Esses profissionais precisam atuar como verdadeiros tradutores da reforma para a realidade das empresas, ajudando a revisar contratos, reorganizar preços, analisar impactos financeiros e apoiar a gestão na tomada de decisões estratégicas. A reforma exige uma atuação integrada, preventiva e com visão de negócio.

A transição foi pensada para ser gradual, mas isso não pode ser confundido com conforto. Como bem alerta o Valor Econômico, o maior risco neste momento não está em errar durante a adaptação, mas em subestimar a profundidade da mudança e adiar decisões importantes. A reforma tributária não é apenas um tema fiscal — ela é, sobretudo, um grande desafio de gestão.

João Montenegro é professor da UFRN, CEO da Montenegro HUB, contador e pesquisador em inovação, gestão e empreendedorismo. É colunista do Portal Juristec, onde escreve sobre temas que conectam pessoas, decisões e negócios em movimento.