O debate sobre a reforma tributária do consumo costuma se concentrar nas alíquotas e na transição entre regimes. No entanto, um dos impactos mais relevantes desse novo modelo está na forma como as empresas passam a formar seus preços. A tributação deixa de ser um elemento secundário e passa a ocupar posição central nas decisões econômicas do negócio.

Essa leitura é bem destacada por Beatriz Machnick no artigo “Reforma tributária e o novo preço de venda”, publicado no Valor Econômico, ao apontar que a introdução do IBS e da CBS não representa apenas um ajuste operacional, mas uma reorganização estrutural da relação entre custo, margem, imposto e resultado, com efeitos diretos sobre a sustentabilidade das empresas.

Na prática contábil, esse movimento já é perceptível. Na Montenegro Contabilidade, temos observado empresas que continuam faturando bem, mas começam a sentir uma redução silenciosa da margem porque o preço não foi revisado à luz da nova realidade tributária. Diante disso, passamos a trabalhar com nossos clientes esses novos conceitos de precificação, com foco na leitura dos custos, do impacto tributário e da rentabilidade, justamente para evitar perdas que não aparecem de imediato, mas comprometem o resultado ao longo do tempo.

Com um IVA de base ampla e incidência mais transparente, fragilidades antes ocultas tornam-se evidentes. Quando o preço não acompanha essa nova estrutura, o imposto passa a consumir parcela relevante do resultado operacional, afetando investimento, expansão e previsibilidade financeira.

Esse movimento também altera a forma como o preço é apresentado ao mercado. A separação mais clara entre o valor do produto ou serviço e o imposto exige maior cuidado na comunicação comercial e nos contratos, sob pena de gerar conflitos, renegociações e insegurança jurídica. Soma-se a isso o impacto do split payment sobre o fluxo de caixa, que exige atenção ao capital de giro e ao momento efetivo de ingresso do recurso líquido.

Nesse contexto, o preço deixa de ser apenas uma variável comercial e passa a refletir escolhas jurídicas, fiscais e de governança. A reforma tributária do consumo funciona, assim, como um filtro de maturidade empresarial, distinguindo organizações que conhecem seus números e antecipam impactos regulatórios daquelas que ainda operam com base em improviso. Ignorar esse movimento é aceitar a erosão gradual do lucro; enfrentá-lo com método e integração entre contabilidade, direito e gestão é condição para atravessar a transição com segurança e sustentabilidade.

João Montenegro é professor da UFRN, CEO da Montenegro HUB, contador e pesquisador em inovação, gestão e empreendedorismo. É colunista do Portal Juristec, onde escreve sobre temas que conectam pessoas, decisões e negócios em movimento.