
Um brasileiro comanda uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. O valor de mercado dessa companhia supera a soma das brasileiras Petrobras, Vale e Ambev.
A lista de compradores desse brasileiro explica tanto valor. A fabricante de processadores Qualcomm tem clientes que vão de A a X: da americana Apple à chinesa Xiaomi.
Cristiano Amon, 55, nasceu e cresceu em Campinas (SP). Foi lá que se formou em engenharia elétrica na Unicamp, em 1992. Desde então, o torcedor da Ponte Preta passou a se dedicar à tecnologia e ficou pouco no Brasil. Viveu um ano no Japão e há quase três décadas mora nos Estados Unidos.
Desde 2021, Amon é CEO da empresa líder em processadores para telefones celulares. A companhia vale US$ 187 bilhões na Nasdaq e está na frenética disputa da revolução tecnológica da inteligência artificial.
Amon aposta que a IA fará com que não seja mais necessário aprender a mexer em um computador ou no celular. “A IA vai entender o que você fala, escreve e vê.”
Por isso, a Qualcomm coloca muitas fichas no desenvolvimento de processadores com IA que serão usados em gadgets diversos, dos óculos ao anel inteligente.
Concorrentes, como a Nvidia, apostam no outro extremo da indústria: nos processadores mais poderosos já fabricados para serem usados na nuvem. É como se um apostasse no varejo, e outro no atacado.
Dias após a concorrente Intel receber injeção de bilhões de dólares da Nvidia e do governo Donald Trump, Amon descarta a necessidade de um novo sócio na empresa ou de injeção de dinheiro.
O CEO diz que capital não é um problema na concorrida jornada da IA na Qualcomm diante dos concorrentes. Na bolsa, porém, o investidor tem uma avaliação distinta. Enquanto as ações da Intel subiram 55%, os papéis da Qualcomm ganharam 12% neste ano.
A seguir, a íntegra da entrevista
Em que momento estamos da jornada da tecnologia e da inteligência artificial?
A indústria está passando por uma mudança bastante significativa. A inteligência artificial muda muita coisa, da arquitetura de semicondutores aos sistemas operacionais e aplicativos.
E temos uma visão bem clara de como isso vai mudar o smartphone e a telefonia móvel. A IA está já em uma fase de desenvolvimento que vai começar a tomar escala, e realmente mudará como se interage com os sistemas digitais. Isso acontece principalmente nos dispositivos que usamos todos os dias.
Estamos vindo de um momento em que o centro da nossa vida digital era o telefone celular, mas coisas interessantes começaram acontecer. Até agora, a gente tinha que aprender a usar o computador ou o telefone. Isso não será mais necessário.
Com a IA, os computadores entendem o que você fala, escreve e vê. Então, a interface do usuário se torna a IA. Isso acontece justamente onde os humanos estão, no seu telefone, óculos, relógio, no carro… Não acontece no datacenter. Essa é uma grande mudança.
Quando essa interface muda, também muda o restante. Na história, o computador tinha como interface o texto. Por isso, o teclado. Depois, veio o mouse e a interface virou gráfica.
E, de repente, você começou a carregar o computador no seu bolso. Agora, você vai conversar com o computador e ele vai entender. Então, o agente passa a ser o centro de tudo porque o computador entende as intenções dos humanos.
Na Qualcomm, também há uma grande mudança. A Qualcomm não é mais uma empresa só de processador para telefone. É uma empresa de processador para telefone, mas também para PC, smartglass, carro, robô, aplicações industriais e também para data centers.
O mercado de IA é muito concorrido, mas os seus grandes concorrentes oferecem infraestrutura para a nuvem. É correta a percepção de que a Qualcomm opta por olhar para o consumidor final com uma pegada distinta dos concorrentes?
Sim. Uma grande diferença é que a Qualcomm é uma das poucas que tem uma capacidade tecnológica em áreas extremamente diversas.
Se você olhar a nossa propriedade intelectual, estamos em celular, Wi-Fi, CPU, GPU, NPU… desde um processador para fone de ouvido até o próprio data center. Fazemos chips de 5 watts até 500 watts. Isso é um diferencial porque, hoje, está bem claro que a IA não é apenas na nuvem. É nuvem mais os dispositivos, que estão na ponta. E nós também entramos no mercado de data centers.
Esse é um mercado extremamente competitivo, é verdade. Mas a nossa história mostra que, para qualquer empresa de tecnologia, ter sucesso hoje não dá garantia nenhuma de sucesso amanhã.
Isso porque a tecnologia muda muito rápido. Quando decidimos entrar em data centers, eu disse: se a gente conseguir desenvolver uma tecnologia disruptiva, inovadora e melhor do que qualquer outra empresa já estabelecida, não há problema porque haverá mercado.
Os seus concorrentes receberam muito capital recentemente. A Qualcomm tem capital para continuar nessa jornada, ou a chegada de um novo sócio ou um aporte seria importante?
Não. Isso nunca foi um problema. A Qualcomm está em um processo de transformação e temos ampliado muito os segmentos de mercado. Estamos indo para setores com taxas de crescimento elevado…
Se você olhar nos últimos dois anos, todo nosso negócio que não era relacionado à Apple cresceu 15% ao somar Android, carro, industrial e a parte robótica. Nunca tivemos um mercado tão amplo.
O nosso negócio de semicondutores tem gerado 30% de margem Ebitda, que está entre os mais altos da nossa história e vamos continuar ampliando para novos mercados.
O Brasil está tentando se posicionar como um lugar para atrair investimentos em data centers com energia limpa, barata e abundante. Parece ser um potencial interessante?
Sem falar especificamente do Brasil ou de qualquer outro país, cada vez mais você vai continuar tendo crescimento em data center, em nuvem e digitalização de várias indústrias. Acho que essa é uma oportunidade para todos os países.
Cristiano, você é o brasileiro que tem o maior posto na indústria da tecnologia. Como é que foi essa jornada desde Campinas, quando estava na Unicamp?
Me formei em engenharia elétrica na Unicamp em 1992. Comecei a trabalhar em uma empresa japonesa, a NEC do Brasil. Em 1994, saí de São Paulo e fui morar no Japão. Lá, fiquei quase um ano.
Então, fui para a Qualcomm como engenheiro, estou aqui há quase 30 anos. Tive uma oportunidade incrível porque quando comecei a trabalhar, logo após me formar, era justamente o começo da explosão da telefonia móvel. Na época, o Brasil estava instalando seu primeiro sistema analógico. Foi aí que a Qualcomm entrou no mapa.
Então, tive a oportunidade de vivenciar e trabalhar com todas as gerações da telefonia móvel: 1G, 2G, 3G, 4G, 5G e, agora, o 6G. Com isso, vi o impacto que essa tecnologia gerou em várias indústrias.
Se eu voltasse no tempo e estivesse me formando hoje na Unicamp, provavelmente tomaria a mesma decisão só que não com a telefonia móvel, iria para a inteligência artificial.
Vivemos uma ótima oportunidade enorme, principalmente para os engenheiros que estão se formando agora no Brasil. Eles podem se interessar, se engajar. Essa será uma transformação tão profunda como foi a transformação da telefonia móvel.
Aos jovens que estão escolhendo a profissão, começando a jornada profissional, que dica você daria para ter uma jornada brilhante como a sua?
Não tenha medo de pensar grande, principalmente diante dos desafios. E realmente se interesse e embarque nessa jornada dessas transformações tecnológicas importantes. Entenda as grandes tendências e vá fundo.
O que aparecia nos filmes, na ficção, há dez ou 20 anos já é realidade. Como será o futuro?
Quando começamos a conversa, comentei que estamos num momento em que a tecnologia se desenvolveu a ponto de que os computadores entendem o mundo em que a gente vive.
O computador pode interpretar tudo o que você vê, o que você fala, o que você escreve e interagir com você.
Tudo o que a gente via na ficção científica dos anos 80, no Super Máquina ou no Robocop, já acontece e vai acontecer cada vez mais. Não é mais ficção científica, e a gente vai ter cada vez mais a presença da tecnologia em tudo o que a gente faz.
E aí cabe uma mensagem: hoje em dia, quando se fala em competitividade de empresas, setores e países, muitos entendem que a segurança econômica está diretamente relacionada à segurança digital e à capacidade das empresas de adotarem tecnologias. A IA realmente vai ser um divisor de águas. E tudo aquilo que não é mais ficção científica passa a ser uma ferramenta importante não só para o desenvolvimento pessoal, mas também para o desenvolvimento corporativo.
FONTE: CNN Brasil | FOTO: Divulgação
