
Natal tem hoje 476.900 veículos nas ruas — quase um terço da frota de todo o Rio Grande do Norte. Para promoção da fluidez exigida por um número dessa dimensão, a cidade encontrou uma solução que, na verdade, não aumenta nenhum centímetro de asfalto: o binário. Vale a pena examinar a conta.
De acordo com os dados do Departamento Estadual de Trânsito – DETRAN-RN, a capital possui hoje nada mais, nada menos, que pouco menos de 30% da frota estadual.
Em reportagem do g1, do dia 31/05/2025, o DETRAN divulgou que a frota estadual cresceu 45,6% entre 2015 e 2024, o que imporia dizer que aproximadamente um terço desse incremento circula na capital do estado. Indefensável levantar a tese que esse número deixará de crescer ou que ele fica a reboque da criação de mais vias alternativas. É o oposto.
Trata-se do momento que faz nascer um problema: as vias urbanas não passaram por melhoramentos de engenharia que abarcassem o volume de veículos circulantes e, evidentemente, os congestionamentos passam a ocorrer tanto em horários que antes não eram vistos, quanto por períodos maiores.
Uma solução implementada foi a introdução dos chamados “binários”. Grosso modo, binário é a unificação do sentido de trânsito de duas vias paralelas, de modo que cada uma passe a operar como percurso exclusivo de ida ou volta.
Então, neste ponto, chamamos a atenção do leitor. Imagine o seguinte cenário: duas vias paralelas, cada uma delas com quatro faixas de rolamento, com pares de faixas em cada direção. A criação do binário as manteve com as mesmas quatro faixas o que mudou foi que o veículo que precisava ir em determinada direção por uma dessas vias passou a fazer isso na outra.
Não houve incremento espacial algum. Trata-se das mesmas vias recebendo o mesmo número de veículos nos mesmos horários.
Podemos tomar o exemplo do que aconteceu com a rua São José, em Lagoa Nova. Haviam duas faixas em cada sentido. Com a inclusão dessa rua no sistema de binário passamos a ter: uma ciclofaixa, uma faixa de estacionamento e uma via de trânsito. Matematicamente há uma perda de espaço ou, na leitura mais otimista, a manutenção da situação anterior, considerando que estacionar sobre a via já era permitido. Qual o ganho para mobilidade, então?
Para piorar, e uso o termo apenas como demonstração de um suposto retrocesso numérico, trata-se de política urbana que se instala em todas as vias inseridas na solução da hora.
Percebam que com essas inclusões passa-se a ter faixas a menos. Eram quatro em cada sentido e agora, no exemplo apresentado, ficam duas. Resolve ou agrava o problema que era enfrentado?
De forma didática a largura de uma faixa de tráfego deve ter pelo menos 3,0m. Isso coloca as coisas no seguinte patamar: dividir a largura da via por 3 e assim definir a quantidade de faixas possíveis para uso de veículos. Havendo “sobra” pode-se pensar em outros usos para o espaço. Apenas nessa condição, entendo.
Então passaremos a desprezar a necessidade de outros atores no ecossistema do trânsito? Notem que o problema que fez emergir o binário não era falta de estacionamento ou falta de ciclovia, para nos mantermos nos limites do que foi descrito, era o congestionamento de veículos.
Nessa linha de ação a solução deve mirar, primordialmente, a eliminação ou diminuição dos congestionamentos e de forma secundária, havendo condições objetivas, atender o ciclista e quem precisa estacionar.
Como meio alternativo de circulação, e até em sua proteção, o ciclista deveria usar vias marginais, secundárias e, portanto, de menor volume diário de veículos.
E isso numa percepção que espaço em vias de tráfego é produto que vai ficando cada vez mais rarefeito e tudo que vai alcançando esse patamar força a priorização para algum ou alguns grupos já que não será possível atender a todos em todas as suas necessidades.
A matemática é simples: não se resolve congestionamento redistribuindo o mesmo espaço. Binários têm valor organizacional real — mas enquanto ciclofaixas e vagas de estacionamento forem inseridas sem antes ampliar a capacidade viária, a solução vai continuar piorando o problema que deveria resolver.
Por Fernando Carneiro | FOTO: STTU
