A história das instituições públicas revela que o mérito raramente é o único critério para o avanço na carreira. Em muitos contextos, a bajulação — entendida como a prática de elogiar em excesso, concordar sem convicção e alimentar vaidades — tornou-se uma estratégia recorrente para quem deseja sobreviver ou prosperar dentro da máquina estatal.

Raízes Históricas

Desde as cortes absolutistas europeias até os gabinetes modernos, a bajulação sempre esteve presente como forma de aproximação do poder. Filósofos como La Rochefoucauld já observavam, no século XVII, que a adulação era uma das linguagens mais eficazes para conquistar favores. No serviço público contemporâneo, essa prática se adapta às hierarquias burocráticas, onde chefias e cargos de confiança concentram poder decisório.

Em O Príncipe, Maquiavel alerta que governantes devem desconfiar dos aduladores, pois estes distorcem a realidade para agradar. Ao mesmo tempo, reconhece que o poder atrai bajuladores inevitavelmente. A lição é clara: quem ocupa cargos de decisão precisa discernir entre conselhos sinceros e elogios interesseiros. No serviço público, essa advertência ecoa: chefias cercadas de bajuladores tendem a perder contato com a realidade administrativa.

No século XVII, Gracián, em A Arte da Prudência, descreve a bajulação como uma “máscara social” necessária em certas circunstâncias. Para ele, saber quando elogiar e quando calar era parte da sobrevivência política. Essa visão mostra que a bajulação não é apenas vício, mas também estratégia — uma forma de navegar em ambientes onde a franqueza pode custar caro.

A Lógica da Bajulação

No ambiente público, a estabilidade do cargo reduz a pressão por desempenho imediato. Isso cria espaço para que relações pessoais e políticas tenham peso desproporcional. O servidor que domina a arte da bajulação constrói uma imagem de lealdade e docilidade, atributos muitas vezes mais valorizados do que competência técnica. O resultado é um sistema em que o avanço depende menos da entrega de resultados e mais da habilidade de alimentar egos.

Consequências Institucionais

A bajulação, embora eficaz para indivíduos, é corrosiva para o coletivo. Ela:

  • Desmotiva os competentes: servidores que prezam pelo mérito percebem que o esforço não é recompensado.
  • Degrada a eficiência: decisões passam a ser tomadas com base em afinidades pessoais, não em critérios técnicos.
  • Perpetua mediocridade: ao premiar a adulação, o sistema reforça comportamentos superficiais e desestimula inovação.

Perspectiva Sociológica

Max Weber, ao analisar a burocracia, defendia que a racionalidade e a impessoalidade deveriam ser pilares do serviço público. A bajulação, porém, subverte esse ideal, transformando a burocracia em um espaço de teatralidade social. Pierre Bourdieu acrescentaria que o “capital simbólico” — neste caso, a capacidade de agradar — passa a ser tão ou mais valioso que o capital técnico ou cultural.

O Desafio da Ruptura

Romper com a cultura da bajulação exige reformas institucionais e mudanças culturais. Avaliações de desempenho objetivas, critérios claros de promoção e valorização da competência são caminhos possíveis. Mas, acima de tudo, é necessário coragem individual: a coragem de dizer o que precisa ser dito, mesmo quando o silêncio bajulador seria mais confortável.

Por Fernando Carneiro | FOTO: Gemini