A inteligência artificial já executa boa parte do trabalho operacional dos escritórios brasileiros. Elabora minutas, organiza documentos, pesquisa jurisprudência e transcreve reuniões. O que ela ainda não faz é decidir com quem o cliente deve firmar um acordo, qual risco vale correr em uma estratégia processual ou como conduzir uma negociação sensível. É exatamente nesse espaço que o advogado precisa se reposicionar.

É essa a visão de Raphael de Almeida, sócio-administrador do Duarte & Almeida Advogados e profissional com quinze anos de experiência na área. Para ele, a transformação em curso não retira centralidade do advogado, ela eleva o padrão do que se espera dele. “O cliente não nos procura por causa de um documento bem formatado. Ele nos procura porque confia na nossa capacidade de entender o problema dele e de orientá-lo com segurança”, afirma. “Esse vínculo é humano e continuará sendo.”

Os dados sustentam essa percepção. O Panorama de Tendências 2026, elaborado pela Preâmbulo Tech a partir de pesquisa com mais de 40 escritórios e departamentos jurídicos brasileiros, mostra que 65,9% dos escritórios já utilizam IA para elaboração de peças processuais e 59,1% para revisão e organização de documentos. Para 86,4% dos profissionais ouvidos, o principal benefício é o aumento de produtividade. Metade dos entrevistados enxerga na tecnologia uma alavanca para tomada de decisão mais estratégica.

O que o levantamento também revela, no entanto, é que apenas 2,3% dos escritórios utilizam IA para análise preditiva e insights estratégicos. Para Almeida, esse número diz muito sobre o estágio atual da adoção: a tecnologia chegou primeiro para resolver o que é volumoso e repetitivo. O salto para funções de maior complexidade analítica ainda depende de um advogado capaz de conduzi-la.

E essa capacidade, segundo ele, não é técnica no sentido tradicional. A habilidade mais valiosa no novo cenário é a leitura macro dos problemas — conseguir relacionar temas de áreas distintas, enxergar conexões entre contextos aparentemente desconectados e formular perguntas bem direcionadas. “A própria inteligência artificial funciona assim, ao combinar probabilidades e padrões estatísticos para construir respostas. Quanto mais refinado for o comando que o profissional dá, mais refinado será o resultado que ele recebe”, explica. “O profissional que trata a IA como uma caixa preta vai ficar para trás.”

O especialista também chama atenção para um fenômeno que o mercado ainda reluta em discutir abertamente. No Brasil, a reserva de mercado em torno da advocacia é historicamente forte. Mas Almeida provoca: em causas de baixa complexidade, onde os pressupostos estão fixados em lei, os fatos estão postos e os documentos comprovam o ocorrido, a IA já seria capaz de fazer o cotejo com celeridade e economia processual que o modelo atual não entrega. “A pergunta que faço não é se a IA vai substituir o advogado, mas em quais situações faz sentido que o processo dependa exclusivamente de intervenção humana”, diz. O contexto ajuda a dimensionar a provocação: em 2025, foram distribuídos mais de 39 milhões de novos processos no Brasil, com aproximadamente 75 milhões em tramitação, segundo o CNJ.

Há, porém, riscos concretos que não podem ser ignorados. O principal deles tem nome: alucinação. É quando a IA fabrica informações inexistentes — doutrina que nunca foi publicada, números de acórdãos inventados, posicionamentos atribuídos a tribunais que jamais se manifestaram naquele sentido — com aparência de veracidade, formatação impecável e linguagem tecnicamente coerente. Para Almeida, o comportamento tem uma explicação que diz muito sobre a origem dessas ferramentas: “A inteligência artificial foi treinada a partir de produções humanas e absorveu um traço muito nosso, que é a tendência de oferecer uma resposta mesmo quando não se tem certeza. É parecido com o que acontece em um concurso público, quando um candidato diante de uma questão que não domina não deixa em branco — ele chuta.” Sua recomendação é direta: o advogado que usa IA na elaboração de peças deve manter postura rigorosa de revisão e, no estágioatual, evitar se valer de citações e precedentes gerados diretamente pelos modelos.

O alerta se estende ao campo ético. Almeida cita o chamado ghost prompt, prática que já vem sendo discutida no meio jurídico: a inserção de comandos ocultos em peças processuais, escritos em fonte branca e tamanho mínimo, invisíveis a olho nu, mas legíveis para ferramentas de IA. Se o magistrado utilizar um sistema para auxiliar na análise da peça, o comando oculto pode instruir o modelo a desconsiderar a contestação da parte contrária. Uma manipulação capaz de subverter o contraditório sem deixar rastros visíveis. “É justamente por isso que precisamos de limites claros e, sobretudo, de órgãos de controle preparados para identificar e coibir condutas dessa natureza com o rigor que elas exigem”, afirma.

Em meio a esse cenário, há um grupo que, na avaliação do especialista, tem especialmente a ganhar: os jovens advogados. Pela primeira vez, um profissional recém-formado, trabalhando sozinho ou em um escritório enxuto, tem acesso às mesmas ferramentas que as grandes bancas utilizam. “Isso muda o jogo de forma significativa, porque equilibra a paridade de armas de um jeito que não existia antes”, diz Almeida. “Para quem está começando, isso pode ser a diferença entre conseguir ou não disputar um cliente com um escritório de dezenas de advogados.” A ressalva, ele faz questão de dizer, é que a IA não substitui a vivência — o trato com o cliente, a leitura de cenário e a sensibilidade para negociar se constroem com o tempo. Mas ela oferece um ponto de partida muito mais elevado.

Sobre os próximos cinco anos, Almeida é otimista. Quando fundou o escritório em 2011, praticamente tudo era feito de forma artesanal — pesquisa jurisprudencial garimpada nos sites dos tribunais, petições construídas a partir de modelos salvos em pasta e controle de prazos em planilhas. Hoje, com automações incorporadas à rotina, o tempo antes consumido com tarefas operacionais passou a ser dedicado à análise estratégica e ao relacionamento com o cliente. A tendência, segundo ele, é que essa transformação se aprofunde. Relatórios da Thomson Reuters Brasil citados no Panorama da Preâmbulo Tech projetam economia de até 12 horas semanais por profissional com o uso consistente de IA generativa até 2029.

“O advogado que entender essa transição e se adaptar a ela vai ter uma capacidade de atuação que a nossa geração, lá em 2011, nem conseguia imaginar”, conclui. “O que me entusiasma de verdade é que a tecnologia não está tirando o sentido da profissão. Está devolvendo a ela o que sempre deveria ter sido o centro: pensar o Direito com profundidade e cuidar de quem nos procura.”

Por Ítalo Bruno, do Portal Juristec | FOTO: Adobe stock