Por muito tempo, a estatística foi vista como algo distante da rotina dos escritórios contábeis e jurídicos, quase sempre associada ao meio acadêmico ou a análises econômicas complexas. Hoje, essa percepção já não se sustenta. A crescente disponibilidade de dados, a necessidade de previsibilidade e a exigência por decisões mais técnicas tornaram inevitável o uso de medidas estatísticas básicas no apoio à gestão, à análise de riscos e à orientação de clientes.

Medidas como média, moda, mediana e desvio padrão, quando bem compreendidas, deixam de ser conceitos abstratos e passam a funcionar como instrumentos práticos de leitura da realidade econômica, financeira, tributária e jurídica. A média, por exemplo, é amplamente utilizada para avaliar faturamento mensal, custos, tributos pagos, honorários ou tempo médio de duração de processos. No entanto, isoladamente, ela pode induzir a conclusões equivocadas, especialmente em cenários com grande variação.

Valores extremos tendem a distorcer o resultado e nem sempre representam o comportamento típico do conjunto analisado.
Nesse ponto, outras medidas ganham relevância. A moda evidencia padrões recorrentes, revelando aquilo que acontece com mais frequência: valores mais comuns de notas fiscais, faixas de honorários, tipos de pedidos judiciais ou fundamentos mais utilizados em decisões.

Já a mediana, por não ser influenciada por extremos, costuma oferecer uma visão mais fiel da realidade em contextos desiguais, como na análise de rendas, faturamento de carteiras de clientes ou valores de condenações. Muitas vezes, ela retrata melhor o “caso padrão” do que a própria média.

O desvio padrão, por sua vez, adiciona uma dimensão essencial à análise: a previsibilidade. Ele mostra o quanto os dados variam em torno de um valor central. Um desvio elevado sinaliza instabilidade, risco ou volatilidade; um desvio baixo indica maior constância e segurança para planejamento. Tanto na contabilidade quanto no Direito, essa informação é fundamental para orientar decisões, negociações e expectativas de forma mais responsável.

Quando utilizadas em conjunto, essas medidas permitem que contadores e advogados avancem para além da intuição. A estatística passa a cumprir o papel de ponte entre dados e decisão, oferecendo base técnica para planejamento, precificação, avaliação de riscos e definição de estratégias. Mais do que números, ela fornece contexto, proporção e probabilidade.

Incorporar essas ferramentas à rotina do escritório não exige softwares sofisticados nem formação avançada em matemática, mas sim uma mudança de mentalidade. Decisões melhores nascem da leitura correta dos dados. Para profissionais da contabilidade e do Direito, a estatística não é um fim em si mesma, mas uma aliada silenciosa e poderosa na construção de análises mais seguras, técnicas e alinhadas à realidade dos clientes.

João Montenegro é professor da UFRN, CEO da Montenegro HUB, contador e pesquisador em inovação, gestão e empreendedorismo. É colunista do Portal Juristec, onde escreve sobre temas que conectam pessoas, decisões e negócios em movimento.