
Durante o Mastercard Innovation Forum, Adam Cheyer, um dos fundadores da Siri, trouxe uma reflexão que já se tornou inevitável: a inteligência artificial não vai roubar seu emprego — mas um humano usando IA pode roubar. A provocação é clara: não é a tecnologia que substitui pessoas, e sim a falta de adaptação.
Cheyer lembra que a IA está para esta década assim como a internet e os smartphones estiveram para o início do século XXI. Ela já ultrapassou marcos que antes eram previstos apenas para o futuro: venceu o campeão mundial de Go e superou a maioria dos candidatos em exames como o BAR americano, equivalente à OAB. A disrupção não é promessa — ela está em curso.
O grande diferencial da IA, segundo ele, está na criatividade: a capacidade de gerar soluções inéditas, não apenas repetir informações existentes. Se isso já acontece hoje, o que esperar dos próximos meses?
A discussão sobre empregos, portanto, precisa mudar de foco. Não se trata de máquinas ocupando vagas humanas, mas de profissionais que ampliam suas capacidades com IA superando quem insiste em atuar sem ela. Cheyer cita pesquisas mostrando que médicos assistidos por inteligência artificial oferecem resultados superiores aos que não utilizam essa tecnologia. O mesmo vale para Direito, Contabilidade, gestão tributária, auditoria e qualquer atividade intensiva em análise e decisão.
Essa visão dialoga diretamente com o que Martha Gabriel vem defendendo nos últimos anos: não será a IA que substituirá você — será alguém que usa IA melhor do que você. Em outras palavras, o risco não está na inteligência artificial, mas na falta de inteligência aumentada.
No universo jurídico e contábil, isso já é realidade. Ferramentas identificam riscos contratuais em segundos, antecipam contingências, cruzam dados que antes exigiam equipes inteiras e horas de trabalho. O profissional relevante não é o que compete com a máquina, mas o que a transforma em aliada estratégica.
Estamos diante de uma mudança estrutural no mundo do trabalho. A IA não chega para tirar o lugar da humanidade — ela elimina modelos ultrapassados de atuação. A nova fronteira não separa humanos e máquinas, e sim profissionais que usam IA daqueles que se limitam às próprias mãos.
A escolha é simples, embora exigente: aprender a usar essas ferramentas para fazer mais e melhor — ou se tornar espectador da própria irrelevância. Porque, como reforça Cheyer, a IA sozinha não vai tirar o seu emprego. Mas alguém que usa IA, vai.
João Montenegro é professor da UFRN, CEO da Montenegro HUB, contador e pesquisador em inovação, gestão e empreendedorismo. É colunista do Portal Juristec, onde escreve sobre temas que conectam pessoas, decisões e negócios em movimento.
