Depois de mais de 21 anos atuando em 11 Estados do Brasil, em causas individuais, coletivas e em Tribunais Superiores, posso afirmar com segurança: a maior parte dos escritórios de advocacia do país ainda toma suas decisões mais importantes sem nenhum dado confiável na mão.

O direito foi construído sobre a lógica do caso a caso, da intuição do advogado experiente, da percepção acumulada ao longo dos anos. Isso tem valor real e não pode ser descartado. Mas existe uma diferença enorme entre experiência que informa a análise e experiência que a substitui. Essa confusão está custando caro para muitos escritórios hoje.

Legal operations — ou legal ops — é o conjunto de práticas, ferramentas e mentalidade que transforma a gestão jurídica em algo mensurável, previsível e estratégico. Uma resposta concreta a um problema que todo advogado já viveu: trabalhar muito, faturar pouco e não conseguir explicar exatamente por quê.

O que os dados revelam que o feeling esconde

Quando pergunto a um advogado qual a taxa de êxito do seu escritório nos últimos 12 meses, por área de atuação e por tipo de cliente, a resposta mais comum é uma pausa longa seguida de uma estimativa vaga. Quando pergunto qual o custo médio por hora trabalhada em cada tipo de processo, o silêncio é ainda maior.

Um escritório que não mede não sabe, por exemplo, que aquela área de atuação que parece rentável consome o dobro do tempo por real faturado em comparação com outra menos glamourosa. Não sabe que um determinado perfil de cliente gera muito mais retrabalho do que a média. Não sabe que seus honorários de êxito estão sendo calculados sobre uma projeção de sucesso que os dados históricos não sustentam.

É ausência de sistema e de hábito.

Os três pilares do legal ops na prática

O primeiro pilar é o mapeamento de processos internos. Todo escritório tem processos, a diferença é que a maioria deles existe apenas na cabeça de uma pessoa. Quando essa pessoa sai, o processo some junto. Documentar como um caso é captado, aberto, distribuído, acompanhado e encerrado não é burocracia: é a base para qualquer melhoria futura e para qualquer análise de eficiência.

O segundo pilar é a gestão de indicadores. Taxa de êxito por área, tempo médio de tramitação, custo por processo, margem por tipo de cliente, índice de satisfação pós-encerramento, esses números, quando acompanhados com regularidade, mudam a qualidade das decisões. Alimentam o julgamento do advogado com informação real em vez de percepção.

O terceiro pilar (e talvez o mais negligenciado) é a gestão financeira orientada por dados. Faturamento não é receita. Receita não é lucro. Lucro não é caixa. Muitos escritórios que parecem saudáveis operam com um descasamento perigoso entre o que cobram, o que recebem e o que de fato sobra. Separar essas camadas e monitorá-las com consistência é o que diferencia um escritório que cresce de um que trabalha muito para permanecer no mesmo lugar.

Legal ops não é só para grandes bancas

Existe um equívoco comum de que legal operations é assunto de grandes bancas ou de departamentos jurídicos de multinacionais. Um advogado solo que controla seu tempo, monitora sua taxa de êxito e revisa sua precificação a cada semestre já está praticando legal ops, mesmo sem saber. O que muda em escritórios maiores é a escala e a sofisticação das ferramentas; a lógica é a mesma.

Na minha experiência como professor da UFRN, vejo jovens advogados chegando ao mercado com excelente formação técnica e zero cultura de gestão. Sabem redigir uma peça impecável, mas não sabem precificar o tempo que ela demandou. Dominam a jurisprudência do STJ, mas não conseguem dizer com precisão qual área de atuação é rentável no escritório onde trabalham.

O advogado que não sabe gerir o próprio trabalho vai sempre depender da sorte para crescer. E sorte não é estratégia.

 

O papel da tecnologia e seus limites

As ferramentas de gestão jurídica disponíveis hoje — softwares de controle processual com dashboards integrados, sistemas de time sheet automatizados, relatórios de jurimetria — são genuinamente úteis. Mas a tecnologia resolve um problema de informação, não um problema de cultura.

Um escritório sem disciplina para registrar o tempo de cada atividade não vai se tornar disciplinado porque comprou um software caro. O software vai ficar subutilizado, e o problema continuará existindo com uma camada adicional de frustração.

Antes de qualquer ferramenta, a pergunta é comportamental: o escritório está disposto a medir? A ser confrontado pelos números? A mudar o que os dados indicarem que precisa mudar? Essa disposição é o verdadeiro ponto de partida e também o mais difícil de construir.

O que 2026 está cobrando

Clientes corporativos estão cada vez mais exigentes quanto à previsibilidade dos escritórios que contratam. Querem saber o orçamento antes, o prazo de execução antes, o risco quantificado antes. Querem relatórios periódicos, não apenas peças bem escritas ao final de cada fase.

Esse nível de entrega só é possível com dados. E dados só existem se houver um processo de coleta que antecede qualquer demanda específica.

O escritório que chega a uma reunião de contratação com histórico de desempenho, taxa de êxito documentada por tipo de causa e modelo de precificação transparente está competindo em outro patamar.

A pergunta que fica é simples: você sabe qual é a área mais lucrativa do seu escritório? E a mais cara? Se a resposta for “mais ou menos”, o trabalho começa agora.

Fiquem com Deus!