Ao refletirmos no dia a dia sobre tantas desigualdades que sofrem as mulheres, é importante dizer que não basta colocar as mulheres no poder, se as estruturas corporativas continuam moldadas para os homens, sendo imprescindível que se reescreva as regras do jogo.

Na comédia Ladies First (Netflix, 2026), o público é transportado para um mundo às avessas: as mulheres detêm o poder político e econômico, enquanto os homens é que são assediados na rua e vistos como naturalmente inadequados para o comando. A sátira diverte, mas seu maior mérito é usar o estranhamento para escancarar uma realidade invisível. Ao inverter os papéis, o filme expõe o quanto naturalizamos a associação entre autoridade e masculinidade no nosso “mundo real”.

Contudo, a obra também comete um tropeço revelador, apontado pela crítica, ao sugerir que o problema se resume a quem ocupa a poltrona da chefia. Esse é, na verdade, o melhor ponto de partida para repensarmos a presença feminina no mercado de trabalho. O principal obstáculo não é a falta de mulheres plenamente capazes, mas sim o fato de que toda a arquitetura corporativa, ou seja, a histórica, jurídica e material, foi erguida em torno de um sujeito que não é a mulher.

Para entender como chegamos a esse cenário desigual, é preciso olhar para o passado e o que está há muito tempo enraizado. A filósofa Simone de Beauvoir já explicava que o homem foi historicamente posicionado como o “universal” e o “sujeito”, enquanto a mulher foi reduzida ao papel de “outro”, definida sempre como um complemento. Como liderar exige autonomia e autoridade, a mulher que chega ao topo não é vista com naturalidade, mas como uma anomalia ou transgressão do lugar que lhe foi imposto.

Essa subordinação, ressalta a pesquisadora Silvia Federici, não tem nada de biológica: ela foi fabricada. Ao longo da história, dinâmicas econômicas e de poder confinavam as mulheres ao trabalho doméstico não remunerado, desvalorizando sua voz e presença no espaço público.

Vivemos em uma sociedade onde o padrão de “profissional ideal” é inteiramente masculino e a invisibilidade feminina ganha contornos que embora, às vezes, sutis, são cruéis e de exclusão, tais como os critérios de mérito, expectativas de disponibilidade integral e mobilidade contínua foram desenhados para um sujeito que não possui responsabilidades de cuidado com a casa ou com a família. Caroline Criado Perez classifica isso como uma invisibilidade estrutural: as mulheres simplesmente são apagadas das métricas que orientam as decisões corporativas.

Na prática, isso se converte em exaustão. Como demonstra a especialista Bárbara Ferrito, as mulheres vivenciam uma constante “pobreza de tempo”, acumulando o trabalho remunerado formal e o trabalho doméstico invisível. O próprio Direito do Trabalho agrava essa realidade ao tentar ser “neutro”. Uma legislação ou regra corporativa que ignora essa dupla jornada excludente acaba por punir as mulheres, privando-as do tempo indispensável para construir a continuidade de carreira exigida pela liderança.

O “teto de vidro” e o “chão de concreto”, nesse debate, é urgente para que se reconheça que a desigualdade não atinge todas da mesma forma. A autora Angela Davis nos lembra de que não existe “a mulher” no singular, pois marcadores de raça e classe fraturam essa experiência.

Portanto, falar apenas sobre quebrar o “teto de vidro” corporativo é uma cegueira se não olharmos para o “chão de concreto”, daquelas que sequer conseguem disputar as oportunidades de cima. Para a mulher negra, a barreira racial se soma à de gênero, mudando a própria natureza do problema.

Mudar quem senta ou mudar a poltrona? Todos esses diagnósticos levam a uma conclusão incontornável: inverter quem ocupa o poder, mas manter intactas as jornadas excludentes e a estrutura que sobrecarrega a mulher, não gera igualdade, apenas realoca a opressão.

A verdadeira questão da liderança feminina não é colocar mulheres para operar máquinas e estruturas desenhadas contra elas. O grande desafio do nosso tempo é redesenhar as próprias estruturas do mercado de trabalho. Enquanto a sociedade se contenta em apenas diversificar as lideranças, sem reconstruir as bases do edifício corporativo, estaremos, assim como na ficção de Ladies First, apenas repetindo o mesmo roteiro injusto de sempre, apenas com um elenco diferente.

Referências

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. 2 v.

CRIADO PEREZ, Caroline. Mulheres invisíveis: o viés dos dados em um mundo projetado para homens. Tradução de Renata Guerra. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução de Heci Regina Candiani. São Paulo: Boitempo, 2016.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução de Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.

FERRITO, Bárbara. Direito e desigualdade: uma análise da discriminação das mulheres no mercado de trabalho a partir dos usos dos tempos. São Paulo: LTr, 2021.

PRIMEIRO as damas. Direção: Thea Sharrock. Roteiro: Natalie Krinsky, Katie Silberman e Cinco Paul. [Estados Unidos]: Netflix, 2026. 1 filme (93 min), son., color. Título original: Ladies First.