
Existe uma espécie de erro inicial na aplicação da inteligência artificial no Direito: avaliar o progresso da ferramenta pela quantidade de conteúdo que ela é capaz de gerar. A resposta chega de forma ágil, estruturada e com um aspecto técnico. Isso causa uma forte impressão na primeira interação. No dia a dia de um escritório, a questão importante não é se a IA é capaz de redigir uma petição, um contrato ou um e-mail para o cliente. A questão é se ela compreendeu o que deveria ser entregue.
Esse aspecto altera o debate. A inteligência artificial já mostrou ser capaz de escrever, resumir, reestruturar conteúdos, propor cláusulas e organizar manifestações. A questão é que a advocacia vai muito além da escrita. Antes de qualquer texto, há uma escolha deliberada no plano profissional a respeito da finalidade, do público-alvo, da profundidade, do estágio do processo, dos riscos e da estratégia. Se essa etapa não for bem compreendida, a resposta pode ser formalmente correta, mas ainda assim inadequada para o caso.
Isso é algo que ocorre frequentemente na prática. Enquanto o pedido se tratava de uma comunicação simples com o cliente, a resposta chega como um parecer técnico. O que foi solicitado era um aprofundamento, o que foi entregue foi um resumo raso. O caso pedia uma petição clara, mas o texto se expande com seções que não são úteis. O contrato necessitava de pequenos ajustes, e a ferramenta passou a encarar cada cláusula como um problema. O usuário solicita que uma abordagem previamente utilizada seja mantida, mas a IA inicia o raciocínio do zero, como se nada tivesse ocorrido antes.
Esses equívocos não se resumem a meras questões de estilo. Eles criam necessidade de refazer tarefas e, em certas situações, podem representar um risco. Uma comunicação mal calibrada com o cliente pode gerar mais insegurança. Uma roupa excessivamente longa pode ofuscar o foco principal. Uma análise superficial pode dar a impressão errada de que o caso foi entendido. Revisar o contrato em demasia pode minar a negociação. Um documento que não seja visualmente agradável pode prejudicar a impressão profissional da entrega, mesmo que o conteúdo jurídico seja aceitável.
O Direito opera dentro de um contexto. A mesma informação pode ser tratada de maneiras completamente distintas dependendo de quem a recebe. Para o cliente, pode ser suficiente esclarecer o que ocorreu e quais serão os próximos passos. Para o sistema interno, é crucial documentar o último ato útil e a medida que ainda está por ser tomada. É do interesse do juízo um pedido claro, bem fundamentado. No que tange à contraparte, o texto deve manter margem para negociação. A inteligência artificial que não faz essa distinção gera conteúdos que, embora corretos em teoria, estão desalinhados com sua função.
Este é o foco da próxima etapa: a IA jurídica terá que deixar para trás a mentalidade da produção e adotar a mentalidade da precisão. A questão não é escrever mais. A ideia é aproximar-se cada vez mais da entrega precisa. O valor estará menos em encher páginas e mais em entender a verdadeira missão.
A rotina de escritório evidencia isso de forma bastante clara. Frequentemente, o advogado não busca uma resposta complexa. Deseja uma resposta que seja útil. Está buscando um texto que possa ser enviado ao cliente sem que pareça impessoal ou distante. Uma observação que a equipe compreenda de forma ágil. Uma petição que atenda à providência sem sobrecarregar o processo. Um contrato que ofereça proteção sem comprometer a viabilidade do negócio. Um parecer que tenha convicção, em vez de apenas parecer um parecer profundo.
Essa diferença é relevante, pois a IA frequentemente se sai bem em dar forma. Ela estrutura o texto de maneira clara, organiza as ideias, utiliza uma linguagem técnica e proporciona uma sensação de que está tudo completo. Ter uma boa aparência não é um critério determinante. Um texto pode ter uma aparência madura e, ainda assim, não abordar a questão em questão. É possível ter bons parágrafos sem ter uma tese. Pode ser redigido em termos legais e ainda assim ser inútil. Isso pode parecer seguro e estar baseado em uma interpretação equivocada do pedido.
É justamente nesse ponto que a produtividade prometida pela tecnologia depende. Se a ferramenta gera rapidamente, mas o advogado precisa refazer para alinhar o tom, o canal, a extensão, a estratégia e o padrão institucional, o ganho é pequeno. Às vezes, desaparece. Não é questão de ter a versão em segundos, mas ter a versão real de uso.
Isso também indica uma consequência prática para os escritórios. A inteligência artificial não resolve a falta de organização interna. Ela a expande. A falta de um modelo de documento, de um processo de revisão, de critérios de qualidade e de clareza sobre o que se espera em termos de entrega faz com que as pessoas utilizem a ferramenta de maneira pouco estruturada. O efeito será uma maior geração de textos medianos. Escritórios que seguem um método conseguem utilizar a IA de forma eficiente, pois sabem exatamente o que solicitar, como fazer as devidas revisões e quando é melhor rejeitar uma resposta que, embora pareça boa, não é adequada.
A ferramenta impulsiona o que já está presente. Se houver critério, torne-o mais rápido. Se há improviso, apresse o improviso.
A prática da advocacia, ao longo da história, sempre se destacou mais como uma atividade de tomada de decisões do que como uma mera atividade de escrita. O advogado é quem determina o que vai ser alegado, o que ficará de fora, o que será demonstrado, o que será negociado, o que será protocolado e o que será adiado. Determine também quando uma resposta deve ser elaborada e quando deve ser simples. Esse juízo profissional não se extingue com a inteligência artificial. Pelo contrário, torna-se ainda mais relevante, pois o erro pode ser apresentado de forma clara e bem articulada.
Por isso, o amanhã da IA no Direito não deve ser encarado como uma disputa por ferramentas mais vistosas ou por textos mais longos. A verdadeira competição girará em torno da precisão. A tecnologia mais eficaz será aquela que minimizar erros de direção, manter o contexto, respeitar o destinatário e entender a profundidade necessária para cada ação.
A distinção nos próximos anos não será entre advogados que utilizam IA e aqueles que não utilizam. Essa conversa vai ficar batida bem rápido. A distinção será feita entre aqueles que utilizam a IA para gerar quantidade e aqueles que a empregam para aprimorar a qualidade das decisões jurídicas.
O volume causa uma forte impressão logo de cara. A precisão é o pilar do trabalho.
No âmbito jurídico, uma entrega de qualidade não é aquela que é mais longa ou mais elaborada. É aquela que aborda o problema adequado, no tempo apropriado e da maneira correta. A inteligência artificial pode ser uma grande aliada nesse processo, mas é fundamental que seja utilizada com um método adequado, revisões e a devida responsabilidade profissional.
A questão central, então, não será se a máquina conseguiu produzir um texto.
Será que ela compreendeu o pedido?
Dr. Matheus Scremin dos Santos
Em colaboração:
Dr. Leonardo Felipe Colturato Lopes
