Há um comportamento que tenho observado em vários lugares: pessoas que agem como se não fizessem parte do problema. Os atrasos, as falhas, os conflitos… tudo é sempre culpa de outro setor, outra pessoa, algum “alguém” indefinido. O endereço muda, mas o padrão é o mesmo. Essa percepção ficou ainda mais clara quando li uma coluna de Betania Tanure no Valor Econômico, onde ela fala justamente sobre essa cultura silenciosa de fuga da responsabilização.

Tanure mostra como essa lógica atravessa toda a hierarquia: líderes pressionados culpam o contexto, gerentes dizem não ter autonomia e colaboradores se enxergam como peças sem voz. A narrativa muda conforme o cargo, mas a essência é sempre igual: a culpa é de alguém. E esse ciclo cria uma paralisia institucional que trava avanços e dificulta decisões importantes.

E há um ponto central que ela destaca — e que vale ser repetido: você é o outro de alguém. A responsabilidade que tentamos empurrar sempre volta. Em áreas como direito, contabilidade, gestão pública, compliance e tantos outros setores que lidam com riscos e prazos rígidos, não existe espaço para espectadores. O profissional de hoje precisa interpretar cenários, propor caminhos, agir antes do problema acontecer e assumir responsabilidades compatíveis com a sua função. O comportamento infantilizado — reclamação, vitimismo, espera passiva — só prolonga o que já está errado.

É justamente aí que entra a autorresponsabilidade como base da maturidade profissional. Responsabilidade não é castigo; é permissão. É a chance de influenciar, decidir, construir. É sair da reclamação e entrar na ação. É parar de se colocar como vítima e assumir o protagonismo. E vale reforçar: senso de dono não tem nada a ver com trabalhar mais horas ou fazer heroísmo. Tem a ver com cuidado com os detalhes, leitura das consequências, antecipação de problemas e compromisso com o resultado — não apenas com a tarefa.

Poucos fazem isso de forma consistente, mas quem faz se torna indispensável. São os profissionais que conectam pessoas, constroem pontes, entregam soluções e não se escondem atrás de desculpas. É tentador culpar líderes, processos ou o contexto — e às vezes tudo isso até é verdade. Mas nada disso substitui a responsabilidade individual. A pergunta não é “quem errou?”, mas “qual é o meu papel nisso?”.

No fim das contas, ninguém é neutro. Todos influenciamos o ambiente em que estamos. A escolha é simples: ou fazemos parte do problema, ou fazemos parte da solução. E isso exige atitude, coragem e coerência — todos os dias.

João Montenegro é professor da UFRN, CEO da Montenegro HUB, contador e pesquisador em inovação, gestão e empreendedorismo. É colunista do Portal Juristec, onde escreve sobre temas que conectam pessoas, decisões e negócios em movimento.