
Tudo parece ter virado assunto, mas quase nada é tratado com profundidade. Gestão, liderança, estratégia, inovação… nunca se falou tanto — e, ao mesmo tempo, nunca se estudou tão pouco.
Hoje, qualquer fragmento de conhecimento vira curso, e qualquer frase de impacto, tese. O mundo digital criou uma geração de “especialistas de superfície”: pessoas que sabem o suficiente para parecer saber muito — e o fazem com confiança, presença digital e bons filtros. O que antes exigia estudo, prática e maturação, hoje cabe num carrossel de frases motivacionais.
A superficialidade virou produto. E a pressa, uma demanda do mercado.
Nesse cenário, proliferam “gurus”, “mentores” e “consultores” que dominam mais o algoritmo do que o conteúdo. Vendem atalhos para problemas complexos e transformam jargões em verdades absolutas. E o mais impressionante: encontram platéia.
Vivemos o tempo das respostas rápidas. Poucos querem o esforço da reflexão — e é justamente essa busca pelo imediato que alimenta os falsos especialistas. Eles prometem simplificar o que, por natureza, é complexo. E muitos compram a ilusão, não porque acreditam, mas porque desejam acreditar que exista um caminho fácil.
E os cursos de superfície seguem o mesmo roteiro: palcos hollywoodianos, luzes, painéis de LED e buffets exuberantes — tudo para impressionar e desviar a atenção do que realmente importa: o conhecimento. Cria-se uma experiência visual arrebatadora, mas esvaziada de conteúdo. O espetáculo substitui o saber.
Na gestão, esse fenômeno é gritante. A ciência das escolhas e das consequências virou palco de certezas instantâneas. Fala-se de propósito, cultura e liderança humanizada, mas quase tudo soa igual. A forma substituiu o conteúdo — e a performance tomou o lugar da consistência.
Mas é importante reconhecer: há mercados para todas as necessidades.
Quem busca motivação, encontra quem a venda. Quem quer atalhos, encontra quem os ofereça. O problema não está em existir oferta — está em não saber o que se está comprando. É preciso ter cuidado para não confundir espetáculo com sabedoria, palco com prática, promessa com verdade. Porque, no fim, o que realmente tem valor não é o que brilha, mas o que permanece.
E, quando o encanto passa e a realidade reaparece, a verdade se impõe: nada é fácil — nem o sucesso, nem o resultado, nem o conhecimento.
Porque parecer especialista é fácil — o difícil, o raro, o que de fato transforma — é ser um.
João Montenegro é professor da UFRN, CEO da Montenegro HUB, contador e pesquisador em inovação, gestão e empreendedorismo. É colunista do Portal Juristec, onde escreve sobre temas que conectam pessoas, decisões e negócios em movimento.
