Após participar do Encontro Nacional da Advocacia Jovem – ENJA, realizado em Maceió, durante os dias 15 a 17/10/2025, e debater sobre o tema “Negócios Inovadores na Advocacia”, despertei a vontade de escrever um pouco sobre o que aprendi.
Nos últimos tempos, apesar da correria do dia a dia e das novas responsabilidades assumidas, tenho tentado separar alguns momentos para fazer reflexões envolvendo a minha vida profissional, as limitações de convívio com os meus familiares e amigos e, em especial, os resultados alcançados. Afinal, a principal sensação que tenho carregado é que, com a aceleração da sociedade, as pessoas deixaram até de se olhar no espelho.
Quando direciono a reflexão à minha vida profissional de advogado, recordo que entrei no curso de direito em 1994, época em que não existia Processo Judicial Eletrônico – PJE, redes sociais, WhatsApp, as intimações eram realizadas através do Diário Oficial do Estado e no Diário Oficial da União, que eram impressos, e o telefone celular teve a sua primeira versão, que exclusivamente fazia ligações telefônicas.
O ajuizamento de uma ação envolvia uma pesquisa jurisprudencial nas revistas dos tribunais, com a passagem de cada página, e as petições iniciais eram impressas em pelo menos 3 (três) vias, sendo uma para o processo, outra para o réu e a outra para o autor, que era chamada a contra-fé.
Além disso, e o que certamente deveria ser o mais curioso, era a possibilidade de escolha da Vara/Magistrado responsável pelo julgamento. Como a distribuição era manual, bastaria perguntar a Vara da vez e optar por aguardar a próxima.
As visitas ao Fórum eram quase que diárias, com o intuito específico de “tanger” os processos e, em algumas vezes, possibilitar a juntada de uma petição protocolada dias e até meses antes.
Três eram as formas de se comunicar com os clientes, sendo o telefone fixo, as reuniões presenciais e as correspondências (telegramas, cartas e fac-smile).
Dentro do escritório, a forma mais prática de organização envolvia o uso de pastas suspensas e fichas para anotações das movimentações processuais.
Sempre digo que era a advocacia romântica e artesanal. Bons tempos que não voltam mais.
Hoje, quase tudo mudou…
Processos judiciais eletrônicos, softwares jurídicos com robôs de busca automática, comunicação via WhatsApp, despachos, audiências e julgamentos virtuais, inteligência artificial para automatização de tarefas e inclusive redigir peças profissionais, sendo as visitas excepcionais aos órgãos do Poder Judiciário.
O próprio comportamento dos clientes também mudou, na medida em que, antes de procurar o advogado, ele certamente efetua uma primeira pesquisa na internet e até utiliza inteligência artificial para tirar as primeiras dúvidas.
O que era considerado romântico e artesanal, passou a ser rápido, tecnológico e digital. Talvez as palavras urgência, ansiedade e aceleração poderão ser consideradas as mais ouvidas no dia a dia da advocacia.
E em meio a tantas transformações e a própria elevação do número de profissionais no mercado, um importante questionamento passa a ser feito: ainda vale a pena ser ADVOGADO?
Como vivo da ADVOCACIA há 26 anos e tenho acompanhado atentamente as referidas mudanças, ouso responder com um SIM.
O que poucos ainda não perceberam é que, a resposta sim deverá ser acompanhada de uma pequena observação, que poderá ser reproduzida na frase “desde que o profissional se adapte ao novo papel exigido pelo mercado.”
Na advocacia romântica, o ADVOGADO era tido com um resolvedor de PROCESSOS JUDICIAIS. Quem obtinha o resultado em um julgamento poderia ser considerado competente e próspero.
Na advocacia digital, não são apenas os processos que importam. O que mais importa para os clientes é a solução dos PROBLEMAS.
Ou seja, se antes o advogado se destacava por ganhar um PROCESSO, hoje ele será destaque se resolver o PROBLEMA. Afinal, com o tempo, percebemos que os processos judiciais poderão causar mais problemas do que soluções.
Portanto, identificado o novo papel exigido pelo mercado, bastará o ADVOGADO passar para a outra etapa, que seria aplicar regras básicas de gestão e iniciando a coleta dos frutos da ADVOCACIA, que são ilimitados.
Viva a ADVOCACIA em tempos modernos.
Até a próxima reflexão…
Carlos Kelsen Silva dos Santos
Advogado, Sócio Gestor do Lucio Teixeira dos Santos Advogados, Especialista em Direito Privado: Civil e Empresarial, Mestre em Administração, Autor do livro “Planejamento Estratégico em Escritórios de Advocacia: a importância de planejar a prestação de serviços”, titular da coluna “Visão Jurídica”, que acontece todas as terças-feiras, durante o programa Cidade Notícias, na Rádio Cidade 94FM; integrante do projeto de educação jurídica @SEU RUMO, Árbitro da Câmara de Arbitragem do Rio Grande do Norte – CAMARN e atualmente Presidente da OAB/RN
