
Ao longo da minha caminhada, aprendi que crescer é muito mais do que aumentar o faturamento, abrir novas unidades ou contratar mais gente. Crescer, de verdade, é amadurecer. E esse amadurecimento nem sempre acontece no mesmo ritmo do crescimento. Tem muita empresa que expande, mas não evolui.
Existe um modelo clássico, criado por Larry Greiner ainda nos anos 70, que ajuda bastante a entender por que isso acontece. Ele mostra que as empresas crescem em fases — e que cada uma dessas fases termina, inevitavelmente, em uma crise. Só que essa crise não é o fim. Pelo contrário: ela é o gatilho para a próxima etapa da evolução. Ou seja, crescer de forma sólida exige passar por desconfortos estruturais e mudar a forma como a organização funciona.
Tudo começa com a fase da criatividade. É o nascimento da empresa, movido por paixão, improviso e agilidade. Mas esse romantismo inicial não dura pra sempre. Quando o volume cresce, a liderança intuitiva começa a falhar. Surge a crise da liderança, e aí vem a necessidade de estruturar: colocar processos, papéis claros, controle.
Daí entramos na fase do crescimento pela direção. Agora tem planejamento, metas, organograma… mas tudo ainda muito centralizado. E isso leva à crise da autonomia — porque quem está na operação começa a se sentir travado, sem espaço para decidir. A solução? Delegar.
A fase da delegação é um respiro. A empresa fica mais descentralizada, aparecem novos líderes, unidades mais independentes, foco em resultados. Só que, com o tempo, cada área começa a andar por conta própria demais, e vem a crise do controle. A alta gestão perde o pulso do todo.
Entra então a fase da coordenação. Integração, padronização, sistemas, sinergia. Mas o remédio vira veneno: nasce a crise da burocracia. Tudo fica engessado, lento, e a empresa perde o brilho. A saída é evoluir para um modelo de colaboração.
A fase da colaboração traz estruturas mais horizontais, times multidisciplinares, decisões mais compartilhadas, apoio da tecnologia, foco em resolver problemas e inovar. Mas até isso tem um preço: Greiner previa que a próxima crise seria a da saturação emocional. Tanta exigência por performance e engajamento pode desgastar líderes e equipes.
O mais impressionante é que, mesmo depois de décadas, o modelo de Greiner continua fazendo sentido. Vemos empresas familiares travadas na hora de delegar, startups que se recusam a formalizar processos, grandes grupos afogados em burocracia. É como se cada fase pedisse uma nova mentalidade para que a empresa continue evoluindo.
Por isso, entender em que fase sua empresa (ou seu cliente) está — e qual crise está prestes a chegar — é uma ferramenta poderosa pra quem atua com Contabilidade, Direito, Administração, Governança e, claro, também para os próprios empreendedores. Quanto mais cedo identificamos o estágio, maior a chance de propor soluções preventivas e efetivas.
A verdade é que as crises fazem parte do caminho. Se quisermos crescer com solidez, precisamos parar de fugir delas — e começar a escutá-las. É no desconforto que mora a próxima evolução.
João Montenegro é professor da UFRN, CEO da Montenegro HUB, contador e pesquisador em inovação, gestão e empreendedorismo. É colunista do Portal Juristec, onde escreve sobre temas que conectam pessoas, decisões e negócios em movimento.
