
Nos últimos anos, tenho acompanhado de perto os desafios enfrentados por profissionais liberais que também são empreendedores — contadores, advogados, médicos, arquitetos. Todos lidando com a mesma pergunta: como transformar conhecimento técnico em uma operação bem gerida e sustentável? Nesse caminho, uma prática que tem se mostrado decisiva é a gestão por indicadores.
Enquanto a contabilidade, por força da própria legislação, sempre precisou medir, organizar e reportar números com precisão, muitos escritórios de advocacia ainda operam sem um painel mínimo de indicadores que oriente decisões estratégicas. E o curioso é que, cada vez mais, a linguagem dos negócios — inclusive no universo jurídico — está sendo traduzida em métricas, metas e dashboards.
A contabilidade trabalha com indicadores de desempenho há muito tempo. Escritórios contábeis mais maduros acompanham não apenas faturamento ou número de clientes, mas também outros dados que ajudam a entender eficiência operacional, lucratividade por carteira, capacidade produtiva e qualidade percebida — informações cruciais para ajustar processos, formar preço e priorizar esforços.
Na Montenegro Contabilidade, por exemplo, adotamos a gestão à vista como pilar da nossa cultura de performance. Indicadores estratégicos são exibidos em tempo real por meio de TVs distribuídas nos ambientes da empresa, permitindo que todos — de analistas a líderes — acompanhem os principais números da operação.
Essa transparência promove engajamento, foco e respostas rápidas.
Esse tipo de abordagem pode inspirar mudanças no setor jurídico. Não se trata de transformar advogados em analistas de Excel, mas de trazer inteligência de gestão para o dia a dia. Acompanhando dados como o número de novos casos, taxa de conversão de propostas, tempo médio de tramitação, taxa de sucesso em ações, horas gastas por advogado ou cliente, índice de retrabalho, receita por área do Direito, custo médio por caso e satisfação dos clientes ao fim dos processos, os escritórios jurídicos passam a ter uma base mais sólida para tomar decisões.
Esses indicadores, se bem definidos e acompanhados com regularidade, podem transformar a gestão de um escritório jurídico. A tomada de decisões deixa de ser puramente intuitiva e passa a ser baseada em evidências, como há muito tempo ocorre na contabilidade.
A cultura contábil nos mostra que aquilo que não é medido, não é gerido. Isso vale para um balanço patrimonial, mas também para a saúde de um escritório, para a performance de uma equipe ou para a rentabilidade de uma carteira de clientes. Ao incorporar práticas de gestão por indicadores, os escritórios de advocacia podem ganhar clareza sobre sua operação, rapidez na resposta a gargalos, visão estratégica para crescer com sustentabilidade e capacidade de liderar times com base em metas reais.
Não é preciso investir em grandes sistemas ou consultorias para começar. Uma boa planilha já pode gerar insights poderosos. O mais importante é adotar uma cultura de monitoramento e melhoria contínua, inspirada por outras áreas — como a contabilidade — que já trilharam esse caminho.
No fim das contas, o futuro da advocacia, assim como o da contabilidade, depende menos de códigos e mais de gestão com inteligência, precisão e propósito.
João Montenegro é professor da UFRN, CEO da Montenegro HUB, contador e pesquisador em inovação, gestão e empreendedorismo. É colunista do Portal Juristec, onde escreve sobre temas que conectam pessoas, decisões e negócios em movimento.
