
Recentemente, o jornal Valor Econômico publicou uma entrevista com Ernesto Pousada, CEO da Vibra, em que ele afirma que “não dá para levar receita pronta de uma empresa para outra” (VALOR ECONÔMICO, 2024). Essa afirmação me tocou diretamente, pois resume com precisão o que vivencio diariamente no trabalho com empresas de segmentos diversos — desde grandes redes de restaurantes e construtoras até distribuidoras, empresas de tecnologia, varejistas, factoring e prestadores de serviços. Cada negócio é um universo à parte, com sua cultura, seus desafios e suas particularidades operacionais.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que o que funcionou muito bem em uma empresa pode não ter qualquer efeito positivo em outra. Às vezes, pode até gerar problemas. Por isso, o papel de qualquer profissional que atua apoiando empresas — seja na contabilidade, na consultoria, no direito, na gestão ou em outras áreas técnicas — vai muito além de aplicar modelos prontos.
É preciso sensibilidade, escuta ativa e uma leitura estratégica do contexto. Antes de pensar em ferramentas, métricas ou soluções padronizadas, é essencial compreender como aquele negócio opera, quais são seus objetivos reais e o que faz sentido para aquele grupo de pessoas que está, na prática, construindo o empreendimento.
Ernesto Pousada, na mesma entrevista, destacou que ao assumir empresas de setores diferentes, sua primeira atitude era fazer perguntas, ouvir e estudar muito antes de tentar propor mudanças. Na contabilidade e na consultoria, o processo é semelhante. As ferramentas que temos à disposição — como planejamento tributário, análise de custos, indicadores financeiros, dashboards — são muito potentes, mas precisam ser aplicadas com parcimônia e adaptadas à realidade específica de cada empresa. Gestão não é copiar e colar. É interpretar, ajustar, co-criar.
A frase “respeito ao conhecimento técnico das pessoas” também chamou minha atenção. Quando entramos numa nova empresa, não somos donos da verdade. O empresário tem um saber prático precioso. Os colaboradores conhecem os fluxos e as rotinas de perto. Nossa missão, como especialistas, é somar. Contribuir com método, técnica e visão externa, sem desconsiderar o conhecimento que já está ali, muitas vezes não sistematizado, mas valioso.
Ernesto Pousada também comentou sobre a criação de uma vice-presidência que integra tecnologia e pessoas, conectando cultura organizacional com transformação digital. Esse raciocínio também se aplica à contabilidade atual. A tecnologia permite automação, agilidade, integração de dados. Mas sem uma cultura sólida, sem pessoas preparadas para interpretar os dados e tomar decisões baseadas em fatos, não há resultado sustentável. O equilíbrio entre inovação e humanização é o que torna uma empresa realmente preparada para o futuro.
Concluo dizendo que, de fato, não há receita de bolo. Mas há princípios que podem guiar boas práticas: escutar com atenção, estudar com profundidade, respeitar o contexto, adaptar soluções e agir com ética e estratégia. Esses valores norteiam o meu trabalho como contador e professor, tanto nas empresas que atendo como nas salas de aula e projetos que coordeno.
O maior erro que podemos cometer é presumir que já sabemos o que funciona. O maior acerto é seguir aprendendo, todos os dias.
João Montenegro é professor da UFRN, CEO da Montenegro HUB, contador e pesquisador em inovação, gestão e empreendedorismo. É colunista do Portal Juristec, onde escreve sobre temas que conectam pessoas, decisões e negócios em movimento.
