
Vivemos um tempo em que quase tudo está a um clique de distância. A inteligência artificial chegou para facilitar tarefas, acelerar processos e responder perguntas em segundos. E de fato tem feito isso com maestria. Mas, como bem aponta o artigo de Claudio Garcia (Valor Econômico, 22/8/2024), precisamos olhar para o outro lado dessa moeda: o que estamos deixando de desenvolver quando tudo se torna fácil demais?
O paradoxo da automação é real. Quanto mais a tecnologia executa por nós, menos exercitamos certas habilidades — e isso tem um impacto profundo, especialmente nos jovens que estão em fase de formação. Se antes era preciso construir raciocínio, buscar fontes e interpretar dados, hoje basta perguntar para a IA. Isso, aos poucos, pode comprometer o senso crítico, a autonomia intelectual e a capacidade de resolver problemas de forma criativa e contextualizada.
Na prática, percebo isso em sala de aula, em empresas e nos círculos de convivência profissional. Muitos jovens já chegam ao mercado sabendo “procurar respostas”, mas com dificuldade de formular boas perguntas. Sabem preencher uma planilha com apoio da IA, mas não compreendem o racional por trás de uma análise. Sabem repetir conceitos, mas não conseguem aplicá-los diante de situações imprevisíveis — justamente as que mais exigem maturidade e pensamento estratégico.
O artigo menciona o uso excessivo de GPS como exemplo: quanto mais dependemos dele, mais perdemos nossa noção de espaço. O mesmo vale para o uso automático da IA. A facilidade pode minar a experiência. E sem experiência prática, não formamos profissionais completos. Podemos até ganhar em produtividade agora, mas perderemos em profundidade mais adiante.
Isso não quer dizer que devemos frear o uso da tecnologia. Ao contrário. O ponto central é consciência. É entender que a IA pode — e deve — ser uma aliada. Mas é preciso intencionalidade na sua aplicação: usá-la como apoio ao aprendizado, não como substituto do processo formativo. Isso envolve ensinar os jovens a pensarem antes de pedir respostas prontas.
Formar talentos no mundo atual vai exigir mais do que ensinar ferramentas. Vai exigir ensinar discernimento, julgamento e propósito. Afinal, como bem lembra o autor do artigo, tecnologia todo mundo pode acessar. Mas o diferencial continuará sendo aquilo que a máquina ainda não consegue reproduzir: a combinação entre conhecimento, vivência e humanidade.
João Montenegro é professor da UFRN, CEO da Montenegro HUB, contador e pesquisador em inovação, gestão e empreendedorismo. É colunista do Portal Juristec, onde escreve sobre temas que conectam pessoas, decisões e negócios em movimento.
